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A Lei do Morro

fevereiro 14, 2012

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“Tão querendo me matar, vão matar eu e a Vitória”, foi a primeira coisa que Rosângela falou, ao se sentar à mesa comigo. Eu estava comendo um sanduíche do lado de fora de uma lanchonete, quando ela e Vitória, sua filha de sete anos, foram falar comigo, implorando por um trocado. Rosângela chorava e estava muito nervosa, convidei as duas a se sentarem para recobrarem a calma. Depois de alguns minutos de choro e palavras desconexas, Rosângela, um pouco mais tranqüila, começou a me contar sua história.

Ela e sua filha, Vitória, haviam acabado de ser expulsas da casa onde moravam no Morro do Papagaio. Joaquim, homem com quem Rosângela morava, colocou as duas para fora, sob ameaças: se elas voltassem ao Morro do Papagaio, iria matá-las. Ele não estava brincando: possuía arma em casa, seu irmão era foragido e seus contatos perigosos.

Vitória pontua tudo o que a mãe diz e conversa sobre acontecimentos tristes e violentos com uma naturalidade que provoca arrepios. Pede para jogar no meu celular com a mesma naturalidade em que diz: “agora a gente mora na rua”. Apesar de tudo, é uma criança alegre e animada. Foi ela quem disse sim quando perguntei a elas se gostariam de um lanche e foi ela quem insistiu para que Rosângela comesse um pouco. Isto me chamou muita atenção: durante o tempo em que conversávamos, era Vitória quem cuidava da mãe, era Vitória quem falava com mais clareza e racionalidade, era Vitória a mais adulta das duas.

E quem é essa criança tão adulta, afinal? Uma menina de sete anos, que poderia ser como qualquer outra. Mas não é. Vitória era constantemente ameaçada por Joaquim, seu padrasto, que falava que a estupraria. Vitória cresce vendo a mãe ser tratada como lixo por seus parentes. Vitória está, neste momento, sem um lugar para morar. “E a escola, já está estudando?”, pergunto. Desta vez a mãe é quem responde: “Ela tava, mas tive que tirar ela no final do ano, mas esse ano vou matricular ela de novo”. “E do que você mais gosta na escola, Vitória?” Ela não pensa duas vezes: “de brincar, de comer e de matemática”. Poder ser criança, comer quando está com fome e estudar: coisas simples que só existem no universo da escola. Quando o sinal toca, ela guarda a infância na mochila e volta para uma casa que não é sua.

Vitória brinca com o celular desenhado no guardanapo

E como é essa casa? Ela e seu dono são descritos pelas duas: “ele fuma 24 horas por dia e deixa [qualquer pessoa] fumar [maconha], enrolar [cigarro de maconha] e ele rouba, não trabalha não”. “Ele é o pai de Vitória?” Não, o pai de Vitória a deixou há muito tempo. “Mas ele paga pensão?” Nunca pagou: “tem dinheiro pra fumar, mas não tem pra pagar pensão”. “Mas você já entrou na justiça? Você tem o direito de exigir que ele pague pensão”, pontuo. “Ele diz que se eu for na Justiça pedir pensão, ele mata eu e a Vitória”, Rosângela responde. A partir daí, toda a conversa começa a mostrar o quão pequeno é o poder da Justiça Federal no meio em que Rosângela vive e o quanto a “lei do morro” é o verdadeiro estatuto a ser respeitado.

Rosângela está desempregada porque sua identidade e carteira de trabalho foram queimadas por Joaquim. Não tem residência própria porque sua irmã se apossou da casa que a mãe havia deixado para todos os filhos. Essa mesma irmã espancou a mãe até a morte e batia em Vitória com utensílios de cozinha freqüentemente. Onde estava o Estado enquanto tudo isso acontecia? Lá na TV, lá nos jornais, longe, muito longe daquele amontoado de barracões e pessoas. E eu? O que eu poderia fazer naquele momento para ajudar aquelas duas que agora tinham apenas a roupa do corpo e meio pacote de biscoito passatempo?

Dei a Rosângela meu celular e o telefone e endereço de uma das centrais do Governo que ajudam moradores de rua: ela não sabia ler, mas perguntaria às pessoas na rua e conseguiria chegar ao local. Uma semana atrás, encontrei Rosângela e Vitória na porta da Araujo e perguntei como estava a situação. Elas não procuraram a ajuda que indiquei, estavam na casa de uma tia de Rosângela, mas lá também estavam surgindo problemas. Por que aquela mulher que sofria tanto não procurou a central do Governo? Por que é alienada? Ou por que não crê no Governo?

O historiador José Murilo de Carvalho afirma, a respeito da falta de reação do povo ante a proclamação da república: “o povo foi bilontra”. Com isso ele quer dizer que a população não estava alienada, mas sabia, desde o início, que a república era uma farsa. O povo não desejou participar daquela república, o povo criou suas próprias repúblicas. Repúblicas que começaram como cortiços, há muito tempo, e hoje são favelas imensas, com leis e regras de conduta próprias. Por que Rosângela acreditaria em um Governo que nunca a protegeu, quando presencia a força da lei do mais forte desde seu nascimento?

Essa reflexão coloca em cheque e, ao mesmo tempo em destaque, o poder do voto. Se pra quem vive segundo as leis do morro, a urna eletrônica não faz sentido; para aqueles que vivem segundo a constituição brasileira, a eleição é o momento de mudar a realidade. Não a realidade do cidadão de classe média, não a realidade daquele eu que vota, mas a realidade de TODOS. Ou exigimos (e acreditamos em) uma política de inclusão ou concordamos com a existência de todas as outras repúblicas e o que vem com elas: miséria, violência, analfabetismo, fome… Ou nos revoltamos pela situação de Rosângela e Vitória ou concordamos com a forma desumana com que são tratadas. E então pode não ser mais tão fácil dormir na própria cama, quando se sabe como é a vida de quem não tem uma.

Gabriela Bouzada

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Trabalho voluntário

janeiro 26, 2012

O Realidade Convida não é só um endereço na internet, é um projeto que busca mostrar e mudar a realidade. Por isso, selecionei alguns trabalhos voluntários para apresentar a vocês: são três opções que contemplam desde quem tem uma rotina corrida até quem quer inserir o trabalho voluntário em seu cotidiano. As férias estão acabando e o ano começa de fato, este post é pra todos os que estão interessados em fazer de 2012 um ano melhor em um mundo melhor!

Criado pelo Instituto Elos, o OASIS ANIMA é considerado um jogo solidário pelos seus criadores. Ele consiste em um grupo de apoio a mobilização cidadã para a realização de sonhos coletivos, sejam eles de comunidades, escolas ou hospitais. Pode ser uma reforma completa de um recinto, a coleta de “x” unidades de alimentos ou até construção ou compra de algum bem necessário para aquele grupo de pessoas. O “jogo” possui regras e é aberto a todos que queiram segui-las para tornar o sonho de uma comunidade em realidade. O projeto, hoje, é realizado pelas faculdades UNA e UNI-BH, sendo realizado tanto em Belo Horizonte como em Santos. O bacana do OASIS é o fato de ser realizado em um único final de semana, perfeito para quem tem os horários meio malucos. Eu e a Gabriela fazemos parte desse jogo e só temos elogios a fazer sobre a experiência de ser um “oaseiro”.
http://oasisanima.ning.com/

Doutores da Alegria – instituição sem fins lucrativos onde, ao contrário do que a maioria pensa, são recrutados palhaços – e não doutores – para o trabalho de distribuir alegria e afeto a um público hospitalar. O voluntariado é bem selecionado, mas com cursos que permitem, em pouco tempo, a inserção no grupo dos palhaços doutores. Em Belo Horizonte, são fornecidos três tipos de cursos.

Palhaços para Curiosos – é um curso introdutório para os curiosos e explica o que é a arte do palhaço hospitalar. O curso não necessariamente é voltado para quem deseja se tornar um. (Duração de dois meses, com encontros semanais).
Formação Básica para o Palhaço – voltado para estudantes de teatro e atores profissionais. Curso de formação na linguagem do palhaço, com duração de oito meses, para apontamento de caráter, desenvolvimento de jogo cênico e treino.
PHD – O Palhaço, sua Habilidade e seu Desenvolvimento – para estudantes de teatro e atores profissionais que já realizaram cursos específicos de Palhaço anteriormente. Aprofundamento da pesquisa do palhaço e treino.
http://www.doutoresdaalegria.org.br/

Cidadão Global AIESEC tem o intuito de promover a responsabilidade social, o entendimento sobre outras culturas, o empreendedorismo e o voluntariado em outros países. Tudo isso acontece por meio de intercâmbios promovidos pela AIESEC Brasil. A experiência consiste em uma viagem de seis meses ou mais para vivenciar novas culturas e gerar impacto positivo para outros países através do voluntariado.

http://www.aiesec.org.br/

Thiago Raydan

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Observação: a série “Os invisíveis da Savassi” continuará no mês de fevereiro, curtam nossa página no facebook para acompanhar!

Gabriel convida: bate-papo

janeiro 3, 2012

Gente, acabei de encontrar com o Gabriel na porta da Araujo do Pátio Savassi! Ele me deu notícias: a mãe e a irmã (ele disse que explica depois) vieram pra cá e agora ele está morando com elas e com um amigo no Morro do Papagaio. Marquei de encontrar com ele 18 horas em frente ao Imperial (bar), sexta-feira. Todos estão convidados e acho que será uma conversa bem bacana. Quem quiser ir, só comentar neste post, publicar na nossa página do facebook (Realidade Convida) ou me mandar uma mensagem no facebook (Gabriela Bouzada).

Até sexta! 😉

Os invisíveis da Savassi – Parte 1

dezembro 22, 2011

Há mais ou menos um mês, estava saindo da Velvet, guando encontrei Gabriel. Nós dois temos a mesma idade, 19 anos, mas nossas histórias de vida só têm mesmo a Savassi como ponto em comum: lugar onde ele faz a calçada de cama e lugar aonde eu vou para beber e dançar com os amigos. Por mais que eu saiba da existência da desigualdade e de inúmeros jovens perdidos pelas ruas, escutar uma história cheia de injustiças e dores de alguém que poderia ser meu amigo, que poderia ser um jovem saindo daquela boate, que poderia ser eu… Não dá para teorizar o sentimento que se tem ao ver que ele poderia muito bem ser você e vice versa.

Você vê uma cadeira abandonada na rua e pensa: "isso poder ser algo lindo". Você vê um morador de rua jovem e pensa: "evite fazer contato visual".

A história de Gabriel começa em São Paulo, cidade onde nasceu. Lá, ele estudou até a quarta série, momento em que precisou começar a catar latinhas para ajudar na casa. Ele morava com a mãe, de quem não fala muito, e o irmão mais velho, que faleceu com AIDS em 2008. Sempre muito pobre e enfrentando enormes dificuldades, o verdadeiro martírio de Gabriel ainda estava por vir.

Ele andava em uma região onde um assalto acabara de acontecer, quando foi parado pela polícia e conduzido a uma delegacia sem que lhe fosse dada nenhuma explicação. Chegando à delegacia, descobriu ser acusado de roubar um celular, pois usava roupas das cores que a vítima relatara: blusa azul e boné vermelho. A vítima estava presente para fazer o reconhecimento e, ao ver Gabriel, afirmou que não havia sido ele o assaltante. Nada disso, no entanto, impediu que a polícia o prendesse.

Rapidamente transferido para a prisão localizada em Ribeirão das Neves – MG, ele perdeu todos os seus documentos em meio a confusão. Em Ribeirão das Neves, ficou DOIS ANOS preso por um crime que NAO COMETEU – enquanto isso, um representante político do nosso país é procurado pela INTERPOL e está aí passeando livre por este Brasil. Nesta parte do texto, eu tenho que respirar bem fundo pra não sair escrevendo vários palavrões, porque a injustiça que Gabriel me contou, de forma tranqüila e conformada, é algo que não consigo esquecer.

Na prisão, ele chegou a ficar um mês com a roupa do corpo e, quando perguntado se alguém o visitava, respondeu: “não tem visita, não tem nada”. Já imaginava que, para ele, receber visitas seria difícil, uma vez que sua família se resumia a uma mãe muito pobre. A segunda negação, porém, traz uma coisa a mais. Quando Gabriel diz “não tem nada” ele se refere às condições da prisão como um todo: não há nada lá pra ele, apenas um ambiente de lotação, pouca higiene e nenhuma perspectiva. Ele mostra as tatuagens que fez na prisão: “Deus é fiel”, “PAZ” e “VIDA LOKA” e explica: lá, ele só podia confiar em Deus; lá, ele queria e precisava de paz; lá, era “vida loka”.

Mas e depois de sair da prisão, como foi?, perguntei. Ele veio para Belo Horizonte e começou a catar latinha e a olhar carros para sobreviver. Sobre a questão dos documentos, ele diz não possuir sequer a certidão de nascimento. Isso, aliado à falta de dinheiro, torna praticamente impossível a retirada de novos documentos. Sem a certidão de nascimento, o cidadão não existe legalmente, não pode exercer seus deveres nem exigir seus direitos.

Depois, em casa, procurei na internet o que o governo propunha às pessoas sem documento, se existia algum serviço especialmente destinado a elas. Encontrei algumas campanhas esporádicas que visam garantir a documentação dessas pessoas, mas tudo muito aquém da real necessidade.  Minha tendência a teorias da conspiração me diz que é bem óbvio que o governo pouco ligue para os moradores de rua: “não têm documento, não são eleitores, não podem votar em mim, não são do meu interesse”.

Mas deixando minhas teorias de lado e voltando ao Gabriel, ao contrário das pessoas que entrevistei depois, ele ainda possuía sonhos. Sua vontade era a de voltar a estudar, depois trabalhar, ter uma casa sua e constituir família. Fiquei feliz em ver que ele ainda possuía desejos, que não desistiu e ao mesmo tempo fiquei triste, porque não existem portas abertas, não vejo caminhos que o levariam aos seus tão simples sonhos.

Estou há algum tempo procurando instituições ou projetos que poderiam ajudar jovens como o Gabriel, mas é difícil enquadrá-lo,  achar algo  concreto. Ele não é um jovem da favela sem perspectivas, ele não é um viciado que precisa se livrar da dependência, ele é uma pessoa que teve a vida devastada por uma injustiça e agora não tem casa, família, dinheiro, documento, amigo, NADA.

Este post não tem como objetivo apenas contar a história de Gabriel, mas é também um pedido de ajuda. Só porque eu não consegui achar projetos ou instituições que ajudariam pessoas como o Gabriel, não significa que eles não existam. Então, se alguém conhecer algo do tipo, POR FAVOR, fale nos comentários, mande um email, uma mensagem no facebook, qualquer coisa. De todas as entrevistas que fiz, é dessa que eu me lembro todos os dias, da injustiça, da impotência diante dessa injustiça e, principalmente, da sensação de que precisa haver uma solução.

Um agradecimento BEM GRANDÃO pra Ana Crivellari, que fez essa entrevista junto comigo e foi super paciente mesmo depois de ter ficado em pé a noite inteira.

Gabriela Bouzada

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O Realidade Convida ficou sem atualizações, mas muitas entrevistas foram realizadas nesse período. Faltava-nos o tempo necessário para fazer um post à altura das vidas que nos foram contadas e, agora que estamos de férias, podemos fazer isso. A maioria das entrevistas foi feita com moradores de rua dependentes de crack, na região da Savassi, e elas serão publicadas em duas ou três partes, para que possa ser dada atenção às falas de cada um.

Quero ser bandido

outubro 12, 2011

A conversa de dez minutos que tive com João e Luísa* é mais um retrato falado do que uma entrevista. Um retrato falado de uma infância de outros sonhos e de outros fatos. Encontrei com os dois vendendo salgados no ponto em que esperava meu ônibus e Luísa me ofereceu um enrolado. Disse que não e ela perguntou se eu poderia pagar um para que ela comesse. Concordei e, enquanto ela comia, comecei a conversar com os dois. O diálogo foi rápido, mas abriu espaço para muitas reflexões.

EDUCAÇÃO

João tem 12 anos e Luísa 11, eles estão no 6º e 5º ano, respectivamente. Perguntei a eles se freqüentavam a escola e se gostavam de lá, as duas respostas obtiveram uma afirmativa evasiva. As minhas tentativas de fazer mais perguntas relacionadas ao estudo fracassaram, eles mudavam de assunto ou corriam até um ônibus que acabara de chegar para vender os salgados.

Fácil falar que “quem não vai bem na escola e não estuda é porque não quer”, “que o governo (em Minas, pelo menos) fornece educação gratuita, meio passe, livros de português e matemática, um monte de coisa! “. Fornece mesmo educação gratuita, mas de que tipo? Turmas lotadas, alunos que vão passando de ano com enormes defasagens, colégios com infra-estrutura precária, professores despreparados para lidar com a realidade dos alunos, é essa a educação gratuita oferecida. Meio passe? Sinto que para duas crianças que moram na Favela Santa Lúcia com a mãe e o irmão mais velho e que precisam vender salgados para ajudar em casa, o meio passe está longe de ser o suficiente. “Livros de português e matemática, de graça, para todos do ensino público!!!” é o que dizem os anúncios na TV, mas vamos parar para pensar um pouco. Quem não tem dinheiro para comprar livro de português e matemática, vai ter para comprar livros das outras matérias? Muitos desses alunos sequer podem arcar com os custos de um caderno, um lápis e uma borracha! O que a publicidade do Governo de Minas Gerais anuncia como um grande passo na educação é, na verdade, UM passo das CENTENAS que ainda precisamos dar para que possamos começar a chamar de educação o que se vê nas escolas.

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PERSPECTIVA E CREDIBILIDADE

A parte mais chocante da nossa conversa acontece quando Luísa e João estão dentro do ônibus, tentando convencer motorista e cobrador a comprarem salgados. O tempo todo em que estou falando com os meninos, o motorista diz frases do tipo: “isso aí não quer saber de estudar não”, “você acha que eles estudam?”. Ao perceber que ignoro seus comentários, ele muda o discurso: “faz dó, né?”. É interessante observar que, nas falas do motorista, Luísa e João ou são malandros que estão assim porque querem ou são pessoas dignas de pena. Os dois pontos de vista revelam passividade: vagabundos por natureza ou desgraçados por natureza, nada há para se fazer. É assim que Luísa e João são vistos pela maior parte da sociedade e é assim também que começam a se enxergar.

Pergunto a eles o que querem ser quando crescerem, Luísa diz que não sabe e João responde, baixo: “quero ser bandido”. Essa fala seria o suficiente para provocar um discurso preconceituoso e alienado, bem do tipo: “Tá vendo que ele quer ser bandido? Não presta! Cheio de pobre honesto e trabalhador e ele querendo o caminho mais fácil!” Como este blog não é preconceituoso nem alienado, a resposta de João nos leva a refletir sobre uma outra questão, a questão da perspectiva.

De um lado, educação de péssima qualidade, dificuldades em casa e a total descrença depositada nele pela sociedade e por ele próprio. Do outro, João encontra, na favela, exemplos de bandidos bem sucedidos, que conseguem sustentar a casa e ainda ter dinheiro para o lazer. Esses dois lados, João vê desde que nasceu, é tudo muito normal pra ele. Minha intenção aqui não é justificar a vontade dele de ser bandido, mas de ressaltar que o contexto em que vive, condiciona-o, desde o início, a sê-lo. Thomas Morus tem, em Utopia, uma passagem que ilustra bem esse condicionamento:

“Abandonais milhões de crianças aos estragos de uma educação viciosa e imoral. A corrupção emurchece, à vossa vista, essas jovens plantas que poderiam florescer para a virtude, e, vós as matais, quando, tornadas homens, cometem os crimes que germinavam desde o berço em suas almas. E, no entanto, que é que fabricais? Ladrões, para ter o prazer de enforcá-los.”

Eu poderia parar por aqui, com esse trecho que fecharia com chave de ouro o texto, mas preciso ainda contar uma última parte da nossa conversa. Ao ouvir que o menino queria ser bandido, o trocador do ônibus resmungou um xingamento e João disse: “O que que você quer ser então, ein?”. “Eu já sou gente, uai”, debochou o trocador. Foi aí que João respondeu a frase que eu queria que o mundo inteiro estivesse ali pra escutar: “Gente eu também sou!”

Gente eu também sou. G-e-n-t-e  e-u  t-a-m-b-é-m  s-o-u.  Tá bom pra você?

*Os nomes foram trocados para preservar a identidade dos entrevistados

Gabriela Bouzada

Prostituição em primeira pessoa

setembro 9, 2011

Enquanto a próxima entrevista feita por nós não chega (terça feira, gente!), vou colocar aqui uma entrevista feita por Carolina Markowicz e Joana Galvão. O documentário se chama “69 – Praça da Luz” e mostra prostitutas falando de seu trabalho, seus sentimentos e suas vidas.

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Aproveitando o gancho do tema, já ouviram falar do livro “Meninas da Esquina”? A jornalista Eliane Trindade uniu o relato de seis adolescentes que são vítimas de exploração sexual e deu origem a um livro emocionante, que, logo no início, já avisa:

“Os olhares são de meninas. As palavras, não. (…) Elas tinham entre 14 e 20 anos quando começaram a relatar suas histórias de vida que, sem qualquer julgamento de ordem moral, fogem ao roteiro do que pais e mães costumam sonhar para suas filhas. Em algum momento de suas curtas existências, elas foram à luta. Ganham ou perdem a vida nas esquinas, estradas e calçadões dos cartões postais do nosso paraíso tropical, em motéis e hotéis de luxo de um Brasil que convive com a exploração de meninas que mal ou nem entram na puberdade e já se tornaram mercadoria do comércio e do tráfico sexual.”

“Meninas da Esquina” é dividido em seis partes, cada qual com o diário de uma das adolescentes. São relatos chocantes, experiências de arrepiar. A seguir, um pouco sobre a vida e o trecho do diário de quatro delas:

Natasha começou a fazer programa aos 9 anos, teve uma filha aos 15 e o dinheiro da prostituição paga suas contas e compra os remédios do avô. Seu sonho é ter a filha, que vive com o pai, morando com ela.

“Vou pra avenida mesmo. Os caras param, perguntam quanto é, eu falo: “Punheta é R$ 10, chupeta, R$ 20; e R$ 30 para fazer tudo. Só vou com camisinha e dinheiro adiantado”. Não consigo sentir prazer. Os clientes pagam, mas reclamam que sou fria. Não suporto a transa, só penso no dinheiro mesmo. “

Diana tem 14 anos e é abusada sexualmente do tio com quem vive. O que mais quer é fazer sua festa de 15 anos e ter a presença do pai, que a renega e destrata. Ela ainda está na primeira série.

“Desde os 6 anos me viro sozinha. Não lembro direito como foi o meu primeiro programa, mas foi com um coroa. Só sei que senti uma agonia e ainda sinto no meu corpo. Sinto vergonha de falar como ganho a vida. Não me sinto à vontade em dar o meu corpo para qualquer homem que pague. Na hora sinto uma coisa quente dentro do meu estômago. Mas o dinheiro me deixa alegre. É minha carne que eu dou para um homem que nem gosto. Mas vale a pena. Preciso de dinheiro para pagar as minhas dívidas.”

Britney tem 14 anos e inicialmente mora com a avó e o tio, que a incentiva a se prostituir quando não há dinheiro suficiente pra comprar comida. Após muitas brigas em casa, vai morar com a mãe e o padrasto, que tenta molestá-la várias vezes. Ela arranja trabalho em uma ONG que participa e, com o dinheiro que ganha, consegue deixar a prostituição.

“A gente curtia também com o Xerife, que é um delegado importante. Eu enrolava ele, dizia que não podia fazer tudo porque estava menstruada e ganhava uns R$ 50. (…) É muito chato, só ia mesmo pelo dinheiro. Minha avó compra roupa e calcinha pra mim, mas não pode comprar pasta de dente, xampu, absorvente. Nunca sobra dinheiro pra comprar essas coisas que preciso mais.”

Milena tem 19 anos e mora em um barraco na favela com mais 10 pessoas, incluindo seu filho. Ela se prostitui, trafica e usa drogas, mas quer mesmo é arranjar um emprego para poder deixar a prostituição e o tráfico de lado. Milena é muito romântica e adora escrever poesias.

“As meninas que vão ler o que escrevo e que, por acaso, estiverem entrando nesse bagulho de prostituição vão ver que é tudo ilusão. Essa coisa de ganhar dinheiro pra caramba é só no começo. Depois, os caras só querem zoar e acontece um monte de coisa ruim.”

O livro inspira o filme “Sonhos Roubados”, de Sandra Werneck. Ganhador de melhor filme por voto popular e melhor atriz no Festival Rio 2009, o longa é extremamente tocante. Abaixo o trailer:

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Por fim, acabo este post com a fala da assistente social Neide Castanha: “Não dá para falar em liberdade de escolha e de consentimento por parte de quem não teve garantida a sobrevivência de forma digna, inclusiva e cidadã.” Para pensar.

Gabriela Bouzada

*lembrando que terça tem entrevista e que temos uma página no facebook (http://www.facebook.com/pages/Realidade-Convida/207371319325578)

Meu nome é Eliete Ferreira da Silva

setembro 6, 2011

Eliete Ferreira da Silva

Essa é Eliete Ferreira da Silva, moradora de rua vivendo atualmente na Praça da Estação, BH-MG.

Era uma manhã de segunda quando fui à Praça da Estação, meu objetivo: entrevistar moradores de rua. Logo que cheguei, já avistei vários homens com seus cobertores, deitados em bancos de madeira. Fiquei tímida, não sabia como abordá-los, como iniciar uma conversa. O que deveria dizer? Comecei a andar pela praça, sem saber bem o que fazer,  foi aí que vi Eliete.

Sentada num banco, embrulhada numa coberta, estava uma mulher franzina com um olhar vago. Aproximei-me, pedi permissão para me sentar e ela prontamente concordou. Eu disse que estava fazendo um projeto sobre moradores de rua e que queria muito conversar um pouco, perguntei seu nome. “Eliete Ferreira da Silva” ela respondeu, firme. “E quantos anos você tem, Eliete?”, questionei. “Eu não lembro, eu perdi todos os meus documentos, eu perdi tudo! Um dia eu acordei e tava sem meus documentos, sem nada. Esse cobertor aqui eu ganhei ontem de uma moça, uma moça boa, muito boa, que veio aqui e me deu e me deu almoço também, me deu comida! Agora meu estômago tá doendo, eu queria ir ali comprar um café com leite, mas é cinqüenta centavos e eu não tenho!”, falou. Ofereci pagar-lhe um lanche e, enquanto ela comia, conversaríamos. A lanchonete era do outro lado da rua e eu tive que ajudá-la a atravessar. Eliete parecia um pouco embriagada e me agradecia o tempo todo, falando que oraria muito por mim e pedindo que eu orasse por ela.

Chegamos à lanchonete, disse a ela que escolhesse o que quisesse e eu pagaria. Um enrolado e um suco: R$ 1,60. Não tenho palavras para descrever o quanto me senti envergonhada ao ouvir os agradecimentos e elogios que Eliete não parava de dizer. Aquele dinheiro era nada pra mim, era troco de pão espalhado pela casa e lá estava eu, sendo chamada de “A menina mais bondosa! A menina mais linda! Deus te abençoe, você é boa demais! Foi Ele que te enviou pra mim! Deus te abençoe!”.

Voltamos à praça, sentamo-nos e começamos a conversar. Foi então que ela me falou mais sobre sua história. A fala de Eliete não era linear e, muitas vezes, tornava-se desconexa e de difícil compreensão, por isso relatarei a seguir a forma como melhor consegui juntar os fatos.

Eliete perdeu o pai, que morreu “de velhice, da idade mesmo”, nas palavras dela, e a quem idolatrava. A dor da perda fez com que ela começasse a beber: “eu não mexo com droga, não mexo com nada disso! Meu problema é esse aqui – mostrou-me a garrafinha que escondia no cobertor. Esse veneno que eu não consigo largar! Já tentei, já tentei e não consigo, eu oro muito, muito pra Deus pra me tirar disso! E o pior é que eles tão colocando coisa nessa cachaça, isso aqui tá matando a gente, eles colocam coisa na cachaça pra vender pra gente, isso tá matando a gente!” A garrafinha era uma daquelas garrafas de refrigerante pequeninas, que antigamente faziam sucesso entre as crianças. Eliete tomava cerca de quatro por dia. Estava nessa havia mais de três anos, tentava sair, mas não conseguia.

O alcoolismo é um caso de dependência química e, portanto, é preciso mais do que força de vontade para deixar de beber. Procurando na internet, consegui achar alguns lugares que fornecem ajuda gratuita a alcoólatras, tais como a Fundação Hospitalar do Estado de Minas Gerais. Esse tipo de informação, no entanto, não chega a pessoas como Eliete, que não têm acesso a veículos de comunicação.

Mas os problemas daquela mulher não se resumiam à bebida. Eliete me disse que costumava trabalhar no restaurante perto da Praça da Estação: “eles pagavam direitinho e deixavam eu usar o banheiro pra tomar banho”, mas depois da internação ela perdeu o emprego. “Que internação?”, indaguei. “Eu tava andando na rua e o carro me jogou longe, eu não vi mais nada. Chamaram uma ambulância e eu fiquei dois meses internada. Depois, quando eu voltei, não me aceitaram de volta.”

Eliete para de falar, fica pensando e solta de repente: “Eu fiquei um ano presa. Um ano! Porque eu matei um cara! Ele ficava roubando minhas coisas, me incomodando! Eu não mexo com ninguém, eu sou quieta, mas ele ficava me incomodando. Matei, a polícia veio e prendeu eu.” Depois de falar isso ela coloca a cabeça no meu ombro e começa a chorar, então me conta sobre a cadeia. Lá, ela era a responsável pela cela, não deixava ninguém ficar acordada depois da meia noite, colocava todo mundo pra dormir. Sua mãe, a quem se refere sempre com muita ternura: “tão velhinha, bem inha mesmo”, pagou um advogado e só por isso ela não ficou presa mais de um ano.

“E onde a sua mãe mora, Eliete? E a sua família?”, perguntei. Sua mãe, suas tias, sua filha e seus dois netos moravam no Barreiro de Baixo. Indaguei por que ela não voltava para eles e ela disse, emocionada: “eu vou voltar, eu quero voltar. Todo mundo me pergunta por que eu não volto pra eles, mas eu não sei” e então ela recomeça a chorar. Nessa parte da história, na parte em que pergunto por que veio para as ruas e por que não volta para sua família, a fala de Eliete torna-se muito confusa. A única coisa que consigo entender com clareza é que ela diz querer voltar pra família. Pergunto se ela tem dinheiro para passagem e outra crise de choro começa, “não tenho, não tenho dinheiro”. Digo que vou pagar a passagem pra ela, ela me dá um abraço forte, longo. Ficamos as duas abraçadas por vários minutos, Eliete dizendo o quanto eu sou boa, o quanto ela agradeceria por Deus ter me enviado e eu pensando, de novo, no quão pouco aquele dinheiro da passagem representava pra mim. Dei o dinheiro para duas passagens (eram dois ônibus até o Barreiro de Baixo) e mais um pouco, ela me abraço de novo, me agradeceu de novo.

Falei que andaria com ela até o ponto e nós demos as mãos. No caminho, Eliete parava qualquer pessoa que encontrasse e dizia que estava indo pra casa, sorrindo e dizendo que eu era enviada de Deus. Falei pra ela jogar a garrafa de cachaça fora, ela deu um último gole e jogou no lixo o resto da bebida. Continuamos a andar, Eliete saltitava!

Um homem nos chamou, não demos atenção, então ele gritou: “vem aqui as duas!”. Fiquei assustada e parei, esperando o homem vir até nós. Quando ele chegou, Eliete o abraçou, falou que eles eram amigos. Ele falou comigo: “eu tô vendo que você ta ajudando ela! Eu quero te falar que aqui eu que mando nessa área e que ninguém vai mexer com você, ninguém!”. O nome dele era Dilson, beijou minha mão, pediu que eu olhasse nos olhos dele e me agradeceu por ajudar Eliete. Eu disse a ele que iria voltar depois e ele falou que sabia que eu ia, que acreditava. Despedi-me de Dilson com um abraço e, enquanto conversava com ele, Eliete já tinha saído andando em direção ao ponto, não a vi mais.

Ela voltou pra casa? Ela usou o dinheiro que eu dei para beber? Alguém a roubou? Não sei, não sei. Espero voltar na próxima segunda e não a encontrar lá, espero que Dilson me diga que ela tenha voltado para família. Mas se voltou ou se ficou, eu me pergunto: o que vem depois? Alcoólatra, fixada na polícia por assassinato, com os documentos perdidos… Será que ela vai descobrir sozinha que existem programas de ajuda gratuitos destinados a alcoólatras? Será que alguém dará emprego a ela? Será que ela saberá aonde ir para obter novos documentos? O que será de Eliete? Nossa sociedade não tem espaço pra ela, nossa sociedade não a quer, nossa sociedade a exclui.

Mas este texto foi escrito pra provar que ela existe! Ei, você que fecha o vidro do carro! Ei, você que nunca saiu da zona sul! Ei, você que sempre teve uma cama quentinha! Ei, eu, você e ele! Eliete Ferreira da Silva existe!!! Mais do que isso, existem incontáveis Elietes, perdidas por aí, nas ruas, e, para ajudá-las, precisamos, antes, enxergá-las.

Gabriela Bouzada. 

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