Skip to content

Meu nome é Eliete Ferreira da Silva

setembro 6, 2011

Eliete Ferreira da Silva

Essa é Eliete Ferreira da Silva, moradora de rua vivendo atualmente na Praça da Estação, BH-MG.

Era uma manhã de segunda quando fui à Praça da Estação, meu objetivo: entrevistar moradores de rua. Logo que cheguei, já avistei vários homens com seus cobertores, deitados em bancos de madeira. Fiquei tímida, não sabia como abordá-los, como iniciar uma conversa. O que deveria dizer? Comecei a andar pela praça, sem saber bem o que fazer,  foi aí que vi Eliete.

Sentada num banco, embrulhada numa coberta, estava uma mulher franzina com um olhar vago. Aproximei-me, pedi permissão para me sentar e ela prontamente concordou. Eu disse que estava fazendo um projeto sobre moradores de rua e que queria muito conversar um pouco, perguntei seu nome. “Eliete Ferreira da Silva” ela respondeu, firme. “E quantos anos você tem, Eliete?”, questionei. “Eu não lembro, eu perdi todos os meus documentos, eu perdi tudo! Um dia eu acordei e tava sem meus documentos, sem nada. Esse cobertor aqui eu ganhei ontem de uma moça, uma moça boa, muito boa, que veio aqui e me deu e me deu almoço também, me deu comida! Agora meu estômago tá doendo, eu queria ir ali comprar um café com leite, mas é cinqüenta centavos e eu não tenho!”, falou. Ofereci pagar-lhe um lanche e, enquanto ela comia, conversaríamos. A lanchonete era do outro lado da rua e eu tive que ajudá-la a atravessar. Eliete parecia um pouco embriagada e me agradecia o tempo todo, falando que oraria muito por mim e pedindo que eu orasse por ela.

Chegamos à lanchonete, disse a ela que escolhesse o que quisesse e eu pagaria. Um enrolado e um suco: R$ 1,60. Não tenho palavras para descrever o quanto me senti envergonhada ao ouvir os agradecimentos e elogios que Eliete não parava de dizer. Aquele dinheiro era nada pra mim, era troco de pão espalhado pela casa e lá estava eu, sendo chamada de “A menina mais bondosa! A menina mais linda! Deus te abençoe, você é boa demais! Foi Ele que te enviou pra mim! Deus te abençoe!”.

Voltamos à praça, sentamo-nos e começamos a conversar. Foi então que ela me falou mais sobre sua história. A fala de Eliete não era linear e, muitas vezes, tornava-se desconexa e de difícil compreensão, por isso relatarei a seguir a forma como melhor consegui juntar os fatos.

Eliete perdeu o pai, que morreu “de velhice, da idade mesmo”, nas palavras dela, e a quem idolatrava. A dor da perda fez com que ela começasse a beber: “eu não mexo com droga, não mexo com nada disso! Meu problema é esse aqui – mostrou-me a garrafinha que escondia no cobertor. Esse veneno que eu não consigo largar! Já tentei, já tentei e não consigo, eu oro muito, muito pra Deus pra me tirar disso! E o pior é que eles tão colocando coisa nessa cachaça, isso aqui tá matando a gente, eles colocam coisa na cachaça pra vender pra gente, isso tá matando a gente!” A garrafinha era uma daquelas garrafas de refrigerante pequeninas, que antigamente faziam sucesso entre as crianças. Eliete tomava cerca de quatro por dia. Estava nessa havia mais de três anos, tentava sair, mas não conseguia.

O alcoolismo é um caso de dependência química e, portanto, é preciso mais do que força de vontade para deixar de beber. Procurando na internet, consegui achar alguns lugares que fornecem ajuda gratuita a alcoólatras, tais como a Fundação Hospitalar do Estado de Minas Gerais. Esse tipo de informação, no entanto, não chega a pessoas como Eliete, que não têm acesso a veículos de comunicação.

Mas os problemas daquela mulher não se resumiam à bebida. Eliete me disse que costumava trabalhar no restaurante perto da Praça da Estação: “eles pagavam direitinho e deixavam eu usar o banheiro pra tomar banho”, mas depois da internação ela perdeu o emprego. “Que internação?”, indaguei. “Eu tava andando na rua e o carro me jogou longe, eu não vi mais nada. Chamaram uma ambulância e eu fiquei dois meses internada. Depois, quando eu voltei, não me aceitaram de volta.”

Eliete para de falar, fica pensando e solta de repente: “Eu fiquei um ano presa. Um ano! Porque eu matei um cara! Ele ficava roubando minhas coisas, me incomodando! Eu não mexo com ninguém, eu sou quieta, mas ele ficava me incomodando. Matei, a polícia veio e prendeu eu.” Depois de falar isso ela coloca a cabeça no meu ombro e começa a chorar, então me conta sobre a cadeia. Lá, ela era a responsável pela cela, não deixava ninguém ficar acordada depois da meia noite, colocava todo mundo pra dormir. Sua mãe, a quem se refere sempre com muita ternura: “tão velhinha, bem inha mesmo”, pagou um advogado e só por isso ela não ficou presa mais de um ano.

“E onde a sua mãe mora, Eliete? E a sua família?”, perguntei. Sua mãe, suas tias, sua filha e seus dois netos moravam no Barreiro de Baixo. Indaguei por que ela não voltava para eles e ela disse, emocionada: “eu vou voltar, eu quero voltar. Todo mundo me pergunta por que eu não volto pra eles, mas eu não sei” e então ela recomeça a chorar. Nessa parte da história, na parte em que pergunto por que veio para as ruas e por que não volta para sua família, a fala de Eliete torna-se muito confusa. A única coisa que consigo entender com clareza é que ela diz querer voltar pra família. Pergunto se ela tem dinheiro para passagem e outra crise de choro começa, “não tenho, não tenho dinheiro”. Digo que vou pagar a passagem pra ela, ela me dá um abraço forte, longo. Ficamos as duas abraçadas por vários minutos, Eliete dizendo o quanto eu sou boa, o quanto ela agradeceria por Deus ter me enviado e eu pensando, de novo, no quão pouco aquele dinheiro da passagem representava pra mim. Dei o dinheiro para duas passagens (eram dois ônibus até o Barreiro de Baixo) e mais um pouco, ela me abraço de novo, me agradeceu de novo.

Falei que andaria com ela até o ponto e nós demos as mãos. No caminho, Eliete parava qualquer pessoa que encontrasse e dizia que estava indo pra casa, sorrindo e dizendo que eu era enviada de Deus. Falei pra ela jogar a garrafa de cachaça fora, ela deu um último gole e jogou no lixo o resto da bebida. Continuamos a andar, Eliete saltitava!

Um homem nos chamou, não demos atenção, então ele gritou: “vem aqui as duas!”. Fiquei assustada e parei, esperando o homem vir até nós. Quando ele chegou, Eliete o abraçou, falou que eles eram amigos. Ele falou comigo: “eu tô vendo que você ta ajudando ela! Eu quero te falar que aqui eu que mando nessa área e que ninguém vai mexer com você, ninguém!”. O nome dele era Dilson, beijou minha mão, pediu que eu olhasse nos olhos dele e me agradeceu por ajudar Eliete. Eu disse a ele que iria voltar depois e ele falou que sabia que eu ia, que acreditava. Despedi-me de Dilson com um abraço e, enquanto conversava com ele, Eliete já tinha saído andando em direção ao ponto, não a vi mais.

Ela voltou pra casa? Ela usou o dinheiro que eu dei para beber? Alguém a roubou? Não sei, não sei. Espero voltar na próxima segunda e não a encontrar lá, espero que Dilson me diga que ela tenha voltado para família. Mas se voltou ou se ficou, eu me pergunto: o que vem depois? Alcoólatra, fixada na polícia por assassinato, com os documentos perdidos… Será que ela vai descobrir sozinha que existem programas de ajuda gratuitos destinados a alcoólatras? Será que alguém dará emprego a ela? Será que ela saberá aonde ir para obter novos documentos? O que será de Eliete? Nossa sociedade não tem espaço pra ela, nossa sociedade não a quer, nossa sociedade a exclui.

Mas este texto foi escrito pra provar que ela existe! Ei, você que fecha o vidro do carro! Ei, você que nunca saiu da zona sul! Ei, você que sempre teve uma cama quentinha! Ei, eu, você e ele! Eliete Ferreira da Silva existe!!! Mais do que isso, existem incontáveis Elietes, perdidas por aí, nas ruas, e, para ajudá-las, precisamos, antes, enxergá-las.

Gabriela Bouzada. 

Anúncios
27 Comentários leave one →
  1. Isabella Barreto permalink
    setembro 7, 2011 1:57 am

    A sociedade só é passível de mudança quando deixamos de ver as coisas de forma naturalizada e passamos a enxerga-las como produto sócio-histórico. Para isso é preciso construir uma consciência crítica acerca da realidade!!!!!!!

  2. Adriana Cataldo permalink
    setembro 7, 2011 2:18 am

    Parabéns gente! Finalemnte encontrei um blog engajado, com assuntos de relevancia para a sociedade! Somente com ações como essas a nossa sociedade vai começar a mudar seu ponto de vista e a brir a cabeça para o mundo ao redor! Mais uma vez, parabéns!

  3. Eusébio permalink
    setembro 7, 2011 4:26 am

    Lindo, Gabriela! Parabéns!!

  4. setembro 7, 2011 1:28 pm

    nossa, AMEI gabi!!! amei esse projeto e amei ler o primeiro post! tá de parabeeens! sempre quis entrevistar mendigos e tal, sempre tive vontade de fazer algo assim, mas nunca o tempo.. to admirando muito isso aqui e to anciosa pro proximo postttttttt!!! beijinhoss

    • setembro 7, 2011 3:11 pm

      muuuito obrigada, jojo! depois vou tirar algumas dúvidas com você sobre o wordpress que eu não sei mexer nisso aqui direito haha beijo!

  5. setembro 7, 2011 5:11 pm

    Ficou muito bacana! Muito legal mesmo! Vou até postar no meu blog (http://mochiladebolinhas.blogspot.com) para que mais pessoas possam ver. Parabéns, o trabalho de vocês está muito legal =) Boa sorte, espero que mais pessoas possam receber o carinho e o tempo de vocês. De verdade, adimirei muito!

    • setembro 7, 2011 7:23 pm

      Ju, muito obrigada mesmo! Super bacana você ter divulgado no seu blog! 😀 Obrigada de novo e volte sempre!

  6. Doidoo! permalink
    setembro 7, 2011 5:26 pm

    Doidoo!

  7. Celinha permalink
    setembro 7, 2011 9:19 pm

    Parabéns Gabi ! Muito bonita sua iniciativa, nos mostra que se a gente realmente quiser a gente pode fazer grandes realizações! Bom saber que ja temos um lugar para pelo menos conhecer um lado que eu, e muitas outras pessoas, desconhecemos! Parabéns!!! =)

    • setembro 7, 2011 9:31 pm

      Muito obrigada mesmo, Celinha! É bom ver que tem gente interessada em conhecer o outro lado que estamos mostrando. Valeu! 🙂

  8. Laura Naghetini permalink
    setembro 8, 2011 11:55 pm

    Bacana demais, Gabi!! Vou continuar acompanhando seu blog… foi uma mega experiência antropológica essa sua, hein??
    Já te falei que, se quiser ajuda nos seus projetos, estou interessada! Parabéns mesmo pela iniciativa!!

  9. Luiza permalink
    setembro 9, 2011 12:30 am

    Aiii gabiiiii, muuuuutio legal sua iniciativa, curti super mil!!!

  10. Gisele permalink
    setembro 9, 2011 3:10 pm

    Parabéns
    isso é o que dissemos hoje para a sua ação ,mas isso não deveria ser dito .Mais que uma boa ação isso deveria ser obrigação do ser humano ,SER HUMANO COM OS SEUS SEMELHANTES .
    Realmente me senti tocada com a historia da Eliete .Bom se ela realmente mudo e foi ser feliz acho que não saberemos ,e da uma paz saber que pelo menos estamos tentando.
    Passarei a ser visitante frequente do seu blog ,muito bom mesmo.

    • setembro 9, 2011 6:03 pm

      Muuuuito obrigada, Gisele! Volte sempre mesmo, é muito importante saber que tem gente acompanhando o blog! 😉

  11. Márcia Z. AYres permalink
    setembro 9, 2011 4:51 pm

    Ei Gabriela,
    fiquei emocionada com a história que escrevu.
    Parabéns pela iniciativa e trabalho.
    Você vai longe.
    Beijos,
    Márcia Z. Ayres
    Psicopedagoga (amiga de sua mãe do MTC)

  12. Alexandre (Namorado da Laura) permalink
    setembro 9, 2011 11:49 pm

    Olá Gabi. a Laura me mandou o seu blog para eu ler este post.
    Achei excelente, alem de estar muito bem escrito foi comovente.
    Sabe, o trabalho que você fez foi algo digno de um psicologo, muitas vezes o trabalho de instituições de caridade não consegue tocar as pessoas para causar uma mudança de paradigma nelas. Eu acho que você se daria bem na linha humanista. O que você fez foi muito mais que uma contribuição financeira, que como você mesma disse, não valia muito para você. Você causou uma mudança de realidade para ela.

  13. setembro 17, 2011 3:40 pm

    por favor nao pare !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

    • setembro 18, 2011 2:22 am

      João, não vamos parar! Esta semana a faculdade apertou pra todos nós, muuuuitas provas e trabalhos, por isso não postamos. Mas vamos nos organizar melhor pra não deixar que o blog fique sem posts! 😉

  14. Marina del Giúdice permalink
    dezembro 26, 2011 1:25 pm

    Gabiii, muito emocionante sua resenha, estou toda arrepiada aqui!
    Quero mesmo começar algum projeto contigo, vamo la!
    Ta de parabéns com o blog, muito bacana gata
    Beeijos, te vejo na ecletic mais tarde 😉
    xxx

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: