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Prostituição em primeira pessoa

setembro 9, 2011

Enquanto a próxima entrevista feita por nós não chega (terça feira, gente!), vou colocar aqui uma entrevista feita por Carolina Markowicz e Joana Galvão. O documentário se chama “69 – Praça da Luz” e mostra prostitutas falando de seu trabalho, seus sentimentos e suas vidas.

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Aproveitando o gancho do tema, já ouviram falar do livro “Meninas da Esquina”? A jornalista Eliane Trindade uniu o relato de seis adolescentes que são vítimas de exploração sexual e deu origem a um livro emocionante, que, logo no início, já avisa:

“Os olhares são de meninas. As palavras, não. (…) Elas tinham entre 14 e 20 anos quando começaram a relatar suas histórias de vida que, sem qualquer julgamento de ordem moral, fogem ao roteiro do que pais e mães costumam sonhar para suas filhas. Em algum momento de suas curtas existências, elas foram à luta. Ganham ou perdem a vida nas esquinas, estradas e calçadões dos cartões postais do nosso paraíso tropical, em motéis e hotéis de luxo de um Brasil que convive com a exploração de meninas que mal ou nem entram na puberdade e já se tornaram mercadoria do comércio e do tráfico sexual.”

“Meninas da Esquina” é dividido em seis partes, cada qual com o diário de uma das adolescentes. São relatos chocantes, experiências de arrepiar. A seguir, um pouco sobre a vida e o trecho do diário de quatro delas:

Natasha começou a fazer programa aos 9 anos, teve uma filha aos 15 e o dinheiro da prostituição paga suas contas e compra os remédios do avô. Seu sonho é ter a filha, que vive com o pai, morando com ela.

“Vou pra avenida mesmo. Os caras param, perguntam quanto é, eu falo: “Punheta é R$ 10, chupeta, R$ 20; e R$ 30 para fazer tudo. Só vou com camisinha e dinheiro adiantado”. Não consigo sentir prazer. Os clientes pagam, mas reclamam que sou fria. Não suporto a transa, só penso no dinheiro mesmo. “

Diana tem 14 anos e é abusada sexualmente do tio com quem vive. O que mais quer é fazer sua festa de 15 anos e ter a presença do pai, que a renega e destrata. Ela ainda está na primeira série.

“Desde os 6 anos me viro sozinha. Não lembro direito como foi o meu primeiro programa, mas foi com um coroa. Só sei que senti uma agonia e ainda sinto no meu corpo. Sinto vergonha de falar como ganho a vida. Não me sinto à vontade em dar o meu corpo para qualquer homem que pague. Na hora sinto uma coisa quente dentro do meu estômago. Mas o dinheiro me deixa alegre. É minha carne que eu dou para um homem que nem gosto. Mas vale a pena. Preciso de dinheiro para pagar as minhas dívidas.”

Britney tem 14 anos e inicialmente mora com a avó e o tio, que a incentiva a se prostituir quando não há dinheiro suficiente pra comprar comida. Após muitas brigas em casa, vai morar com a mãe e o padrasto, que tenta molestá-la várias vezes. Ela arranja trabalho em uma ONG que participa e, com o dinheiro que ganha, consegue deixar a prostituição.

“A gente curtia também com o Xerife, que é um delegado importante. Eu enrolava ele, dizia que não podia fazer tudo porque estava menstruada e ganhava uns R$ 50. (…) É muito chato, só ia mesmo pelo dinheiro. Minha avó compra roupa e calcinha pra mim, mas não pode comprar pasta de dente, xampu, absorvente. Nunca sobra dinheiro pra comprar essas coisas que preciso mais.”

Milena tem 19 anos e mora em um barraco na favela com mais 10 pessoas, incluindo seu filho. Ela se prostitui, trafica e usa drogas, mas quer mesmo é arranjar um emprego para poder deixar a prostituição e o tráfico de lado. Milena é muito romântica e adora escrever poesias.

“As meninas que vão ler o que escrevo e que, por acaso, estiverem entrando nesse bagulho de prostituição vão ver que é tudo ilusão. Essa coisa de ganhar dinheiro pra caramba é só no começo. Depois, os caras só querem zoar e acontece um monte de coisa ruim.”

O livro inspira o filme “Sonhos Roubados”, de Sandra Werneck. Ganhador de melhor filme por voto popular e melhor atriz no Festival Rio 2009, o longa é extremamente tocante. Abaixo o trailer:

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Por fim, acabo este post com a fala da assistente social Neide Castanha: “Não dá para falar em liberdade de escolha e de consentimento por parte de quem não teve garantida a sobrevivência de forma digna, inclusiva e cidadã.” Para pensar.

Gabriela Bouzada

*lembrando que terça tem entrevista e que temos uma página no facebook (http://www.facebook.com/pages/Realidade-Convida/207371319325578)

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One Comment leave one →
  1. Carina permalink
    setembro 10, 2011 6:01 pm

    Adorei o primeiro video,saiu daquela visão das adolecentes que viram prostitutas e mostrou uma realidade que até então eu não imaginava. Muito bacana!

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