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Quero ser bandido

outubro 12, 2011

A conversa de dez minutos que tive com João e Luísa* é mais um retrato falado do que uma entrevista. Um retrato falado de uma infância de outros sonhos e de outros fatos. Encontrei com os dois vendendo salgados no ponto em que esperava meu ônibus e Luísa me ofereceu um enrolado. Disse que não e ela perguntou se eu poderia pagar um para que ela comesse. Concordei e, enquanto ela comia, comecei a conversar com os dois. O diálogo foi rápido, mas abriu espaço para muitas reflexões.

EDUCAÇÃO

João tem 12 anos e Luísa 11, eles estão no 6º e 5º ano, respectivamente. Perguntei a eles se freqüentavam a escola e se gostavam de lá, as duas respostas obtiveram uma afirmativa evasiva. As minhas tentativas de fazer mais perguntas relacionadas ao estudo fracassaram, eles mudavam de assunto ou corriam até um ônibus que acabara de chegar para vender os salgados.

Fácil falar que “quem não vai bem na escola e não estuda é porque não quer”, “que o governo (em Minas, pelo menos) fornece educação gratuita, meio passe, livros de português e matemática, um monte de coisa! “. Fornece mesmo educação gratuita, mas de que tipo? Turmas lotadas, alunos que vão passando de ano com enormes defasagens, colégios com infra-estrutura precária, professores despreparados para lidar com a realidade dos alunos, é essa a educação gratuita oferecida. Meio passe? Sinto que para duas crianças que moram na Favela Santa Lúcia com a mãe e o irmão mais velho e que precisam vender salgados para ajudar em casa, o meio passe está longe de ser o suficiente. “Livros de português e matemática, de graça, para todos do ensino público!!!” é o que dizem os anúncios na TV, mas vamos parar para pensar um pouco. Quem não tem dinheiro para comprar livro de português e matemática, vai ter para comprar livros das outras matérias? Muitos desses alunos sequer podem arcar com os custos de um caderno, um lápis e uma borracha! O que a publicidade do Governo de Minas Gerais anuncia como um grande passo na educação é, na verdade, UM passo das CENTENAS que ainda precisamos dar para que possamos começar a chamar de educação o que se vê nas escolas.

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PERSPECTIVA E CREDIBILIDADE

A parte mais chocante da nossa conversa acontece quando Luísa e João estão dentro do ônibus, tentando convencer motorista e cobrador a comprarem salgados. O tempo todo em que estou falando com os meninos, o motorista diz frases do tipo: “isso aí não quer saber de estudar não”, “você acha que eles estudam?”. Ao perceber que ignoro seus comentários, ele muda o discurso: “faz dó, né?”. É interessante observar que, nas falas do motorista, Luísa e João ou são malandros que estão assim porque querem ou são pessoas dignas de pena. Os dois pontos de vista revelam passividade: vagabundos por natureza ou desgraçados por natureza, nada há para se fazer. É assim que Luísa e João são vistos pela maior parte da sociedade e é assim também que começam a se enxergar.

Pergunto a eles o que querem ser quando crescerem, Luísa diz que não sabe e João responde, baixo: “quero ser bandido”. Essa fala seria o suficiente para provocar um discurso preconceituoso e alienado, bem do tipo: “Tá vendo que ele quer ser bandido? Não presta! Cheio de pobre honesto e trabalhador e ele querendo o caminho mais fácil!” Como este blog não é preconceituoso nem alienado, a resposta de João nos leva a refletir sobre uma outra questão, a questão da perspectiva.

De um lado, educação de péssima qualidade, dificuldades em casa e a total descrença depositada nele pela sociedade e por ele próprio. Do outro, João encontra, na favela, exemplos de bandidos bem sucedidos, que conseguem sustentar a casa e ainda ter dinheiro para o lazer. Esses dois lados, João vê desde que nasceu, é tudo muito normal pra ele. Minha intenção aqui não é justificar a vontade dele de ser bandido, mas de ressaltar que o contexto em que vive, condiciona-o, desde o início, a sê-lo. Thomas Morus tem, em Utopia, uma passagem que ilustra bem esse condicionamento:

“Abandonais milhões de crianças aos estragos de uma educação viciosa e imoral. A corrupção emurchece, à vossa vista, essas jovens plantas que poderiam florescer para a virtude, e, vós as matais, quando, tornadas homens, cometem os crimes que germinavam desde o berço em suas almas. E, no entanto, que é que fabricais? Ladrões, para ter o prazer de enforcá-los.”

Eu poderia parar por aqui, com esse trecho que fecharia com chave de ouro o texto, mas preciso ainda contar uma última parte da nossa conversa. Ao ouvir que o menino queria ser bandido, o trocador do ônibus resmungou um xingamento e João disse: “O que que você quer ser então, ein?”. “Eu já sou gente, uai”, debochou o trocador. Foi aí que João respondeu a frase que eu queria que o mundo inteiro estivesse ali pra escutar: “Gente eu também sou!”

Gente eu também sou. G-e-n-t-e  e-u  t-a-m-b-é-m  s-o-u.  Tá bom pra você?

*Os nomes foram trocados para preservar a identidade dos entrevistados

Gabriela Bouzada

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4 Comentários leave one →
  1. outubro 13, 2011 3:26 am

    Belo texto.

  2. Sophia permalink
    outubro 14, 2011 11:27 am

    Muito bom texto,Gabi! Expos uma visão que poucos tem sobre essa parcela da população.
    É dificil mostrar a realidade para aqueles que acham mais fácil ignora-lá ou são acomodados com a situação,pensam que nada que façam irá mudar algo e pronto;mas se esquecem que a conscientização do problema é o primeiro passao para a mudança.
    Seu blog está sendo um ótimo meio para garantir que essas pessoas prestem atenção em outro ponto de vista,o real.

  3. Samy Chafic permalink
    outubro 18, 2011 2:25 pm

    Adorei conhecer o seu blog! Fui recomendado pela Adriana Cataldo. Muito bom ler as suas ideias e conhecer a sua filosofia a respeito de fatos que marcam (positiva ou negativamente) a nossa sociedade! Vou acompanhar de perto as suas publicações. Parabéns!

  4. Julie permalink
    dezembro 12, 2011 12:44 am

    Já disse que você é genial?
    Não só porque você me trata bem, mas porque vc trata todos do mesmo jeito.
    Isso pra não começar a dizer sobre essa iniciativa do blog.
    Genial.

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