Skip to content

Os invisíveis da Savassi – Parte 1

dezembro 22, 2011

Há mais ou menos um mês, estava saindo da Velvet, guando encontrei Gabriel. Nós dois temos a mesma idade, 19 anos, mas nossas histórias de vida só têm mesmo a Savassi como ponto em comum: lugar onde ele faz a calçada de cama e lugar aonde eu vou para beber e dançar com os amigos. Por mais que eu saiba da existência da desigualdade e de inúmeros jovens perdidos pelas ruas, escutar uma história cheia de injustiças e dores de alguém que poderia ser meu amigo, que poderia ser um jovem saindo daquela boate, que poderia ser eu… Não dá para teorizar o sentimento que se tem ao ver que ele poderia muito bem ser você e vice versa.

Você vê uma cadeira abandonada na rua e pensa: "isso poder ser algo lindo". Você vê um morador de rua jovem e pensa: "evite fazer contato visual".

A história de Gabriel começa em São Paulo, cidade onde nasceu. Lá, ele estudou até a quarta série, momento em que precisou começar a catar latinhas para ajudar na casa. Ele morava com a mãe, de quem não fala muito, e o irmão mais velho, que faleceu com AIDS em 2008. Sempre muito pobre e enfrentando enormes dificuldades, o verdadeiro martírio de Gabriel ainda estava por vir.

Ele andava em uma região onde um assalto acabara de acontecer, quando foi parado pela polícia e conduzido a uma delegacia sem que lhe fosse dada nenhuma explicação. Chegando à delegacia, descobriu ser acusado de roubar um celular, pois usava roupas das cores que a vítima relatara: blusa azul e boné vermelho. A vítima estava presente para fazer o reconhecimento e, ao ver Gabriel, afirmou que não havia sido ele o assaltante. Nada disso, no entanto, impediu que a polícia o prendesse.

Rapidamente transferido para a prisão localizada em Ribeirão das Neves – MG, ele perdeu todos os seus documentos em meio a confusão. Em Ribeirão das Neves, ficou DOIS ANOS preso por um crime que NAO COMETEU – enquanto isso, um representante político do nosso país é procurado pela INTERPOL e está aí passeando livre por este Brasil. Nesta parte do texto, eu tenho que respirar bem fundo pra não sair escrevendo vários palavrões, porque a injustiça que Gabriel me contou, de forma tranqüila e conformada, é algo que não consigo esquecer.

Na prisão, ele chegou a ficar um mês com a roupa do corpo e, quando perguntado se alguém o visitava, respondeu: “não tem visita, não tem nada”. Já imaginava que, para ele, receber visitas seria difícil, uma vez que sua família se resumia a uma mãe muito pobre. A segunda negação, porém, traz uma coisa a mais. Quando Gabriel diz “não tem nada” ele se refere às condições da prisão como um todo: não há nada lá pra ele, apenas um ambiente de lotação, pouca higiene e nenhuma perspectiva. Ele mostra as tatuagens que fez na prisão: “Deus é fiel”, “PAZ” e “VIDA LOKA” e explica: lá, ele só podia confiar em Deus; lá, ele queria e precisava de paz; lá, era “vida loka”.

Mas e depois de sair da prisão, como foi?, perguntei. Ele veio para Belo Horizonte e começou a catar latinha e a olhar carros para sobreviver. Sobre a questão dos documentos, ele diz não possuir sequer a certidão de nascimento. Isso, aliado à falta de dinheiro, torna praticamente impossível a retirada de novos documentos. Sem a certidão de nascimento, o cidadão não existe legalmente, não pode exercer seus deveres nem exigir seus direitos.

Depois, em casa, procurei na internet o que o governo propunha às pessoas sem documento, se existia algum serviço especialmente destinado a elas. Encontrei algumas campanhas esporádicas que visam garantir a documentação dessas pessoas, mas tudo muito aquém da real necessidade.  Minha tendência a teorias da conspiração me diz que é bem óbvio que o governo pouco ligue para os moradores de rua: “não têm documento, não são eleitores, não podem votar em mim, não são do meu interesse”.

Mas deixando minhas teorias de lado e voltando ao Gabriel, ao contrário das pessoas que entrevistei depois, ele ainda possuía sonhos. Sua vontade era a de voltar a estudar, depois trabalhar, ter uma casa sua e constituir família. Fiquei feliz em ver que ele ainda possuía desejos, que não desistiu e ao mesmo tempo fiquei triste, porque não existem portas abertas, não vejo caminhos que o levariam aos seus tão simples sonhos.

Estou há algum tempo procurando instituições ou projetos que poderiam ajudar jovens como o Gabriel, mas é difícil enquadrá-lo,  achar algo  concreto. Ele não é um jovem da favela sem perspectivas, ele não é um viciado que precisa se livrar da dependência, ele é uma pessoa que teve a vida devastada por uma injustiça e agora não tem casa, família, dinheiro, documento, amigo, NADA.

Este post não tem como objetivo apenas contar a história de Gabriel, mas é também um pedido de ajuda. Só porque eu não consegui achar projetos ou instituições que ajudariam pessoas como o Gabriel, não significa que eles não existam. Então, se alguém conhecer algo do tipo, POR FAVOR, fale nos comentários, mande um email, uma mensagem no facebook, qualquer coisa. De todas as entrevistas que fiz, é dessa que eu me lembro todos os dias, da injustiça, da impotência diante dessa injustiça e, principalmente, da sensação de que precisa haver uma solução.

Um agradecimento BEM GRANDÃO pra Ana Crivellari, que fez essa entrevista junto comigo e foi super paciente mesmo depois de ter ficado em pé a noite inteira.

Gabriela Bouzada

__

O Realidade Convida ficou sem atualizações, mas muitas entrevistas foram realizadas nesse período. Faltava-nos o tempo necessário para fazer um post à altura das vidas que nos foram contadas e, agora que estamos de férias, podemos fazer isso. A maioria das entrevistas foi feita com moradores de rua dependentes de crack, na região da Savassi, e elas serão publicadas em duas ou três partes, para que possa ser dada atenção às falas de cada um.

Anúncios
6 Comentários leave one →
  1. Ana permalink
    dezembro 27, 2011 12:52 am

    Gabi, você é um exemplo, sabia?
    Também não conheço uma organização que pudesse ajudar o Gabriel, mas alguém precisa dar o primeiro passo, assim com você fez. E muito bem!
    Pode me chamar sempre que quiser para te acompanhar, tá?

  2. Sophia permalink
    dezembro 27, 2011 12:55 am

    Sempre inovando. Gostei!!
    É até um pouco constrangedor,mas verdadeiro,admitir que a maioria das pessoas,assim como eu,olham para os moradores de rua sem imaginar a sua história,tratando-os muitas vezes como marginais,ladrões ou vadios. Gostei muito da nova entrevista e da vontade de olhar para esse lado da historia!!

  3. Samy Chafic permalink
    janeiro 2, 2012 3:18 am

    Mais do que uma nova bela entrevista, o que me atrai em meio a toda as situações reais narradas por você é a sua postura! A sua atitude e a forma com que você enxerga o mundo, realmente, convidam as pessoas a romperem a inércia do comodismo e a enxergarem os fatos à sua volta de maneira crítica e realista. Admiro o seu trabalho e estou certo do seu potencial! Torço para que você possa multiplicar esses valores e deixar um legado positivo de contribuições para a sociedade! Um abraço e parabéns!

  4. Laura Naghetini permalink
    janeiro 3, 2012 7:57 pm

    woow, que tenso…. =///

    injustiça é um sentimento muito difícil de lidar mesmo. Uma mistura de impotência, raiva e angústia que compreensivelmente devasta a vida de algumas pessoas.

    Que bom que vc voltou a postar, Gabi! =)

Trackbacks

  1. Gabriel convida: bate-papo « RealidadeConvida
  2. Trabalho voluntário « RealidadeConvida

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: