Skip to content

A Lei do Morro

fevereiro 14, 2012

.

“Tão querendo me matar, vão matar eu e a Vitória”, foi a primeira coisa que Rosângela falou, ao se sentar à mesa comigo. Eu estava comendo um sanduíche do lado de fora de uma lanchonete, quando ela e Vitória, sua filha de sete anos, foram falar comigo, implorando por um trocado. Rosângela chorava e estava muito nervosa, convidei as duas a se sentarem para recobrarem a calma. Depois de alguns minutos de choro e palavras desconexas, Rosângela, um pouco mais tranqüila, começou a me contar sua história.

Ela e sua filha, Vitória, haviam acabado de ser expulsas da casa onde moravam no Morro do Papagaio. Joaquim, homem com quem Rosângela morava, colocou as duas para fora, sob ameaças: se elas voltassem ao Morro do Papagaio, iria matá-las. Ele não estava brincando: possuía arma em casa, seu irmão era foragido e seus contatos perigosos.

Vitória pontua tudo o que a mãe diz e conversa sobre acontecimentos tristes e violentos com uma naturalidade que provoca arrepios. Pede para jogar no meu celular com a mesma naturalidade em que diz: “agora a gente mora na rua”. Apesar de tudo, é uma criança alegre e animada. Foi ela quem disse sim quando perguntei a elas se gostariam de um lanche e foi ela quem insistiu para que Rosângela comesse um pouco. Isto me chamou muita atenção: durante o tempo em que conversávamos, era Vitória quem cuidava da mãe, era Vitória quem falava com mais clareza e racionalidade, era Vitória a mais adulta das duas.

E quem é essa criança tão adulta, afinal? Uma menina de sete anos, que poderia ser como qualquer outra. Mas não é. Vitória era constantemente ameaçada por Joaquim, seu padrasto, que falava que a estupraria. Vitória cresce vendo a mãe ser tratada como lixo por seus parentes. Vitória está, neste momento, sem um lugar para morar. “E a escola, já está estudando?”, pergunto. Desta vez a mãe é quem responde: “Ela tava, mas tive que tirar ela no final do ano, mas esse ano vou matricular ela de novo”. “E do que você mais gosta na escola, Vitória?” Ela não pensa duas vezes: “de brincar, de comer e de matemática”. Poder ser criança, comer quando está com fome e estudar: coisas simples que só existem no universo da escola. Quando o sinal toca, ela guarda a infância na mochila e volta para uma casa que não é sua.

Vitória brinca com o celular desenhado no guardanapo

E como é essa casa? Ela e seu dono são descritos pelas duas: “ele fuma 24 horas por dia e deixa [qualquer pessoa] fumar [maconha], enrolar [cigarro de maconha] e ele rouba, não trabalha não”. “Ele é o pai de Vitória?” Não, o pai de Vitória a deixou há muito tempo. “Mas ele paga pensão?” Nunca pagou: “tem dinheiro pra fumar, mas não tem pra pagar pensão”. “Mas você já entrou na justiça? Você tem o direito de exigir que ele pague pensão”, pontuo. “Ele diz que se eu for na Justiça pedir pensão, ele mata eu e a Vitória”, Rosângela responde. A partir daí, toda a conversa começa a mostrar o quão pequeno é o poder da Justiça Federal no meio em que Rosângela vive e o quanto a “lei do morro” é o verdadeiro estatuto a ser respeitado.

Rosângela está desempregada porque sua identidade e carteira de trabalho foram queimadas por Joaquim. Não tem residência própria porque sua irmã se apossou da casa que a mãe havia deixado para todos os filhos. Essa mesma irmã espancou a mãe até a morte e batia em Vitória com utensílios de cozinha freqüentemente. Onde estava o Estado enquanto tudo isso acontecia? Lá na TV, lá nos jornais, longe, muito longe daquele amontoado de barracões e pessoas. E eu? O que eu poderia fazer naquele momento para ajudar aquelas duas que agora tinham apenas a roupa do corpo e meio pacote de biscoito passatempo?

Dei a Rosângela meu celular e o telefone e endereço de uma das centrais do Governo que ajudam moradores de rua: ela não sabia ler, mas perguntaria às pessoas na rua e conseguiria chegar ao local. Uma semana atrás, encontrei Rosângela e Vitória na porta da Araujo e perguntei como estava a situação. Elas não procuraram a ajuda que indiquei, estavam na casa de uma tia de Rosângela, mas lá também estavam surgindo problemas. Por que aquela mulher que sofria tanto não procurou a central do Governo? Por que é alienada? Ou por que não crê no Governo?

O historiador José Murilo de Carvalho afirma, a respeito da falta de reação do povo ante a proclamação da república: “o povo foi bilontra”. Com isso ele quer dizer que a população não estava alienada, mas sabia, desde o início, que a república era uma farsa. O povo não desejou participar daquela república, o povo criou suas próprias repúblicas. Repúblicas que começaram como cortiços, há muito tempo, e hoje são favelas imensas, com leis e regras de conduta próprias. Por que Rosângela acreditaria em um Governo que nunca a protegeu, quando presencia a força da lei do mais forte desde seu nascimento?

Essa reflexão coloca em cheque e, ao mesmo tempo em destaque, o poder do voto. Se pra quem vive segundo as leis do morro, a urna eletrônica não faz sentido; para aqueles que vivem segundo a constituição brasileira, a eleição é o momento de mudar a realidade. Não a realidade do cidadão de classe média, não a realidade daquele eu que vota, mas a realidade de TODOS. Ou exigimos (e acreditamos em) uma política de inclusão ou concordamos com a existência de todas as outras repúblicas e o que vem com elas: miséria, violência, analfabetismo, fome… Ou nos revoltamos pela situação de Rosângela e Vitória ou concordamos com a forma desumana com que são tratadas. E então pode não ser mais tão fácil dormir na própria cama, quando se sabe como é a vida de quem não tem uma.

Gabriela Bouzada

Anúncios
One Comment leave one →
  1. Julie permalink
    fevereiro 29, 2012 3:22 am

    estou sem palavras, Gabi.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: